Cremer amplia receita e pensa em aquisi??es

Veículo: Valor Econ?mico
Seção: Especial
Página: B16


A entrada em um showroom instalado na fábrica da Cremer retrata bem as mudanças recentes vividas pela empresa fundada em 1935, em Blumenau. Itens que lhe deram fama ao longo do tempo, como fraldas de pano e esparadrapos, dividem espaço com produtos de terceiros, agora vendidos pela empresa, e com um novo portfólio, composto por produtos como uma linha de curativos para proteção de ferimentos, cremes e óleos para pele, mercados em que começa a dar os primeiros passos. A estratégia de diversificação de produtos e de foco maior na distribuição, iniciada em 2004, foi um alicerce importante para que a empresa mudasse o rumo complicado que as finanças tomavam em 1997, e voltasse a ter crescimento de receita e de lucratividade. Em abril, ela conseguiu retornar ao mercado de capitais com uma oferta pública de ações, e pretende agora acelerar o crescimento. A oferta possibilitou levantar R$ 210 milhões como parcela primária (aproximadamente R$ 500 milhões no total), com a empresa usando os recursos para reforçar seu capital de giro, pré-pagar dívida bancária, e permitindo ainda que passasse a analisar "aquisições seletivas", conforme informações contidas no prospecto da emissão. Os executivos da companhia catarinense evitam falar de planos futuros. Bernard Hubenet, diretor-financeiro, de relação com investidores e de novos negócios, diz apenas que o momento é de consolidação da empresa. "Estamos capturando mercado de competidores e temos um montante de recursos hoje expressivo para acelerar essa captura de mercado ainda mais". No prospecto da operação, a empresa informou que "explorará de forma seletiva as oportunidades de aquisição de empresas de distribuição com portfólio complementar de fornecedores e produtos, que possuam contratos exclusivos de fornecimento e que aprimorem a estrutura de vendas e distribuição em segmentos de valor agregado". Hubenet também comentou que procurará "adquirir fabricantes para complementar a linha de produtos". À beira da falência em 1997, a Cremer passou por um processo de reestruturação, finalizado em 2004. Depois de ter sido gerida pela consultoria Applied, por sete anos, em 2004 teve 81% das suas ações adquiridas pela Merrill Lynch Global Private Equity Group por R$ 102 milhões, que saneou a companhia e reformulou sua estratégia de atuação, melhor aproveitando os 13 centros de distribuição espalhados pelo país, e um call center. "Quando você tem uma estrutura de distribuição tão poderosa, com número de clientes tão grande (cerca de 30 mil em 2004), faz todo sentido procurar extrair o máximo de valor dessa estrutura, com aumento de oferta de produtos, com itens de terceiros", explica Hubenet. A venda de produtos de terceiros vem se mostrando como uma das principais ferramentas para aumentar o faturamento. No segundo trimestre de 2006, essa receita somava R$ 17,6 milhões (28,4% do total), subindo para R$ 23,7 milhões no segundo trimestre deste ano (32,2% do total). A empresa já trabalha com itens como seringas descartáveis, agulhas, fraldas descartáveis entre outros, e entrou em novos canais como o de clínicas odontológicas. De aproximadamente 500 produtos, passou a comercializar cerca de 3 mil, e ampliou seu número de clientes de 30 mil para 41,2 mil. Antonio Cesar Godoy, presidente da companhia, explica que investir na distribuição de produtos de terceiros foi uma oportunidade. "A Cremer sabia que seus clientes consumiam outros itens e tinha vantagem de vender e distribuir bem. Não teríamos a ousadia ou até imprudência de fabricar tudo que um cliente como um hospital consome. Isso não tem relação com nossa expertise. Sabemos fabricar bem produtos têxteis e adesivos descartáveis", afirma. Nos dados do balanço do segundo trimestre deste ano, a Cremer apresentou receita líquida de R$ 69,3 milhões, aumento de cerca de 20% ante os R$ 58 milhões obtidos no mesmo período do ano anterior. Hubenet destaca que se desconsideradas as despesas não-recorrentes relativas à abertura de capital, despesas financeiras não-recorrentes relacionadas ao pré-pagamento de dívida, o IR Diferido e amortização do ágio decorrente da aquisição da Cremer em abril de 2004, a empresa apresentou um lucro líquido ajustado de R$ 9,5 milhões no segundo trimestre, crescimento de 139,1% em relação ao segundo trimestre de 2006. Sem essas considerações, a empresa teve prejuízo líquido de R$ 16,8 milhões ante perdas de R$ 871 mil no mesmo período do ano anterior.