A rainha das camisas

Veículo: Revista ?poca
Seção: Neg?cios
Página: 62

Em Paris, capital mundial da moda, uma brasileira foi considerada a “rainha das camisas”. O título foi dado pelo jornal Le Figaro à carioca Anne Fontaine, de 37 anos. Não conhece? Ela é dona de uma rede de lojas que faturou US$ 170 milhões no ano passado, tem mais de 70 lojas na Europa, nos Estados Unidos, na China e no Japão e cuja receita prevista para 2007 deverá crescer 20%. Mas, no Brasil, suas camisas são vendidas apenas na butique Avec Nuance, no Rio de Janeiro. “O Brasil ainda não é prioridade para ela”, diz Sílvia Chreem, dona da Avec. O sucesso de Anne tem uma história improvável. Na juventude, sua grande preocupação era o meio ambiente. Aos 17 anos, ela viajou para conhecer a vida dos índios da Amazônia. Passaria lá as férias. Ficou ali um ano e meio. Na volta, descobriu que a mulher que chamava de mãe era, na verdade, sua avó. A “irmã mais velha”, sua mãe, tinha tido um caso com um francês aos 17 anos. O pai morreu pouco depois que ela nasceu. Ao saber da história, Anne diz que decidiu conhecer o país e a cultura do pai. Estudou Biologia em Paris e engajou-se na defesa dos animais. Empregou-se num barco de proteção às baleias e aos golfinhos do Mar Mediterrâneo. E, aí, tudo mudou.   Aos 23 anos, em 1993, conheceu o francês Ari Slotkin, então dono de uma decadente fábrica de camisas para garçonetes. Ele vinha sendo destruído pela concorrência com as malhas chinesas, muito mais baratas. Para ajudá-lo, Anne diz ter vencido um preconceito. “Faço minhas próprias roupas desde os 10 anos de idade, mas achava que trabalhar com moda era supérfluo”, afirma. Sua estratégia para ajudar o namorado foi elevar o padrão das roupas. Ela desenhou um modelo de camisa branca, com colarinho duplo, flores em alto-relevo e laços. Com a nova modelagem, apostou que a camisa feminina poderia deixar de ser uniforme de reuniões de trabalho para virar item de luxo. Acertou. Hoje, suas peças chegam a ser vendidas por 290 euros.  A empresa foi rebatizada. Chama-se, até hoje, Anne Fontaine. O primeiro lote de camisas, vendido para uma loja de departamentos, logo sumiu das prateleiras. “Muitos lojistas nos procuraram”, diz Anne. “Mas queríamos ter nossa própria loja.” Para começar seu negócio, o casal pediu empréstimo a vários bancos franceses – sem sucesso. Apenas um pequeno banco financiou parte do negócio. Eles recorreram, então, a parentes e amigos para inaugurar, em 1994, a primeira loja. Anne escolheu o bairro de Saint Germain-des-Prés, na Rive Gauche, ponto de encontro de artistas e intelectuais, em Paris. Naquela época, as butiques de luxo começavam a se instalar por lá. “Ela acertou no lugar”, diz Regina Martelli, consultora de moda. “Se fosse em São Paulo, a loja não ia dar certo. Os franceses valorizam o básico, como as camisas brancas e os vestidos pretos.”  No ano seguinte, Anne abriu a primeira loja em Tóquio. “O mercado japonês é muito dinâmico e foi muito importante para nosso amadurecimento”, diz. Mais um ano, e ela entrou no mercado americano. A carioca Sílvia Chreem, da Avec Nuance, é uma das poucas revendedoras da grife. Anne não tem sócios nem franqueados. As poucas parcerias que fez não deram certo. “Perdemos dinheiro ao recomprar a parte de uma sócia nos Estados Unidos que não tocou bem o negócio”, afirma. Ela visita todas as lojas da grife pelo menos duas vezes por ano. “Vivo no avião.” A sede da empresa fica em Honfleur, uma pequena cidade turística no norte da França. “Como trabalho 12 horas por dia, mudei para o campo para amenizar o estresse.” É lá que fica seu ateliê, onde ela ainda desenha as roupas da companhia. No início do ano, inaugurou uma loja-conceito e um spa, na Rua Saint Honoré, em Paris, ao lado de grifes badaladas como Valentino e Chloé. Lá, oferece tratamentos e banhos com cosméticos à base de plantas. “Meu lado ambientalista não morreu.”