Camargo Corrêa faz oferta de compra da Alpargatas da Argentina

Veículo: Jornal do Commercio
Seção: Empresas
Página: B3

A Camargo Correa fez oferta de compra do controle da Alpargatas, da Argentina, segundo comunicado feito à Bolsa de Comércio de Buenos Aires. Desde o ano 2000, a Alpargatas é controlada pelos fundos de investimentos Newbridge Latin America, Longbar Argentina LLC, OCM Oportunities Fund LLT e o Columbia HCA Master Retirement Fund., que detêm 31,45% das ações. Os restantes 68,55% das ações pertencem a dezenas de acionistas. O valor do negócio não foi revelado. Segundo comunicado da Alpargatas, o fechamento da operação depende de "certas condições e acordos adicionais entre as partes". Se consumada a compra, a Camargo Correa controlará cerca de 50% do mercado interno argentino de denim (tecido usado para confecção de jeans). A Camargo Correa - por meio da Santista, em conjunto com a Coteminas - está presente na Argentina no setor têxtil através da empresa Grafa, uma das maiores fábricas argentinas de toalhas. Rumores desde 2006 Nos últimos anos haviam surgido intensos rumores -intensificados desde o início de 2006 - de que a Camargo Correa estava interessada na Alpargatas e que havia iniciado negociações. No entanto, até esta semana, em ambos lados da fronteira predominavam os desmentidos sobre essa operação. O valor da operação negociada não foi revelado. Graças à reestruturação de sua dívida, a Alpargatas registrou em 2006 faturamento de US$ 63,4 milhões, cinco vezes mais do que em 2005. A empresa é a dona, na Argentina, das fábricas de calçado e vestimenta esportiva Topper, Flecha e Pampero. A estrutura da Alpargatas espalha-se por toda a Argentina. A empresa possui fábricas de têxteis em três províncias; plantas dedicadas à produção de calçados em outras cinco e uma fábrica processadora de algodão no norte do país. Além disso, possui fábrica no Uruguai onde fabrica alpargatas, o tradicional calçado das áreas rurais. Além de atuar na área têxtil, a Camargo Correa, desde 2005, controla a Loma Negra, a histórica fábrica de cimento argentina, que pertenceu à empresária Amália Fortabat. Graças à posse da Loma Negra, a Camargo Correa domina 51% do mercado do cimento local. O pacote da compra da Loma Negra incluiu a ferrovia Ferrosur Roca, estratégica via que atravessa a província de Buenos Aires. A província produz um terço do PIB argentino. A Alpargatas, símbolo do setor têxtil argentino desde 1883, é mais uma das "jóias da coroa" das indústrias da Argentina que passa para mãos brasileiras. Desde a crise financeira, social e econômica de 2001-2002, empresas argentinas de grande porte passaram para o controle brasileiro. A ponta de lança do desembarque verde-amarelo foi a Petrobrás, que em 2002 comprou a empresa energética Pérez Companc (Pecom), com a qual transformou-se na segunda companhia em vendas de diesel na Argentina, a terceira em gasolina e petróleo e a quarta em gás. Depois, foi a vez da AmBev, que adquiriu a centenária cervejaria Quilmes. Junto com as vendas da Brahma, a AmBev é responsável na Argentina de mais de dois terços da cerveja consumida pelos argentinos. Ela também domina 38% do mercado de refrigerantes. A Belgo Mineira está presente na Argentina por meio da Acindar, comprada no ano 2000. A empresa domina o mercado de aço longo usado na construção civil. Até o setor de carne bovina - emblema da economia argentina durante séculos - tem uma considerável marca brasileira por da goiana Friboi, que tornou-se o maior exportador de carnes processadas da Argentina ao comprar o frigorífico Swift, além de outras empresas menores do setor. Outros setores atrativos. Atualmente, a Friboi é responsável por 8% do mercado interno argentino e por 25% das exportações. Empresas do setor de calçados, como a Grendene, Paquetá e Picadilly também estão investindo no país. Outra empresa na mira dos capitais brasileiros é a Aços Bragado, que está atraindo o Grupo Gerdau. Segundo fontes do mercado, o grupo brasileiro teria feito oferta de US$ 150 milhões pela companhia argentina, especializada em laminados. No total, desde 2002, os investimentos brasileiros na Argentina totalizaram US$ 7 bilhões. A presença brasileira é significativa em pelo menos seis setores da economia argentina. A perspectiva dos analistas é que a tendência de investimentos de empresas brasileiras no país continue de vento em popa por vários anos. Um dos estímulos é o desempenho exuberante da economia da Argentina, que nos últimos quatro anos registrou uma média anual de crescimento do PIB de 9%. Outro fator é o câmbio, que favorece as empresas brasileiras dispostas a ir de compras na Argentina. De novo no mesmo grupo A aquisição da Camargo Corrêa anunciada ontem trará de novo, para dentro de um só grupo, a Argentina Alpargatas e a São Paulo Alpargatas, criada em 1907 como um braço da argentina, por sua vez formada em 1885. A brasileira pertenceu à empresa argentina até 1983. Ícone da indústria do país vizinho, do qual é a maior companhia de têxteis e calçados, a Argentina Alpargatas passou por sérias dificuldades nas últimas décadas - chegou a pedir concordata em 2001, sob o peso de uma dívida de quase US$ 500 milhões e cerca de 150 pedidos de falência feitos por seus credores na Justiça. O fundo de investimentos Newbridge, um dos principais credores, terminou como seu controlador e aos poucos a empresa começou a se recuperar. A companhia ainda luta com patrimônio líquido negativo, mas o rombo tem diminuído. Em 2005 voltou a dar lucro.