Quando a imagem difere da realidade

Veículo: Revista Meio & Mensagem
Seção: Negócios
Página: 86

No ano passado, a indústria têxtil e de confecção registrou diminuição de 5,45% nas exportações e aumento de 41,12% nas importações, o que resultou em um saldo negativo na balança comercial. Os números são representativos de um cenário desfavorável ao mercado de moda interno e externo. Por outro lado, há diversos estilistas fazendo sucesso no exterior, em um ambiente em que se vende criatividade um design diferenciado que nem sempre é comprovado nos produtos "made in Brazil" que chegam ao exterior, seja por uma questão de baixa qualidade, seja por falta de preço competitivo comparado a grandes potências do setor, como a hoje já considerada China. Infelizmente, os números da cadeia têxtil não fazem jus à simpática imagem que a moda brasileira ainda tem no estrangeiro. Segundo a consultora de moda Gloria Kalil, apesar da boa reputação do setor lá fora, os compradores internacionais se perguntam sobre o porquê de consumir os produtos brasileiros, "se vêm de um país que é tão longe e tão perigoso". Em processo de amadurecimento, o Brasil já foi ultrapassado pela Rússia e por nações da Ásia, ocupando hoje o sétimo lugar na indústria de confecção, com apenas 0,5% de participação no mercado mundial. E, para conquistar mais espaço, Gloria acredita que o segmento necessita investir mais em criatividade e marca. Fernando Valente Pimentel, diretor superintendente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), concorda com a avaliação e acrescenta que o caminho da indústria nacional é apostar na questão do estilo. "É isso que pode dar notoriedade ao País e causar entusiasmo para fabricar os produtos aqui, facilitando a geração de mais empregos no setor", diz. A cadeia têxtil brasileira cria em torno de 1,6 milhão de empregos diretos e indiretos. Estilo Outdoor O WGSN, site de tendências de moda e comportamento, tem olhado cada vez mais para o Brasil que, segundo a Abit, registrou faturamento total de US$ 33 bilhões no setor e mantém cerca de 30 mil empresas , por considerá lo um mercado que tem se desenvolvido muito rápido. O portal, cujo conteúdo é aberto apenas para assinantes, abriga notícias de todo o mundo, feitas por repórteres locados em diversos países. Em suas páginas é possível encontrar informações sobre a moda brasileira, o varejo, celebridades e gráficos. Ruth Marshall, editora do WGSN de Londres, conta que no exterior o Brasil é muito bem reconhecido por ter uma excelente moda praia, de lingerie e jeans. Ela explica que a moda nacional diferentemente da francesa, que foi construída graças à habilidade e à herança históricas do setor reflete muito mais o estilo de vida outdoor, o clima e a natureza do País. Para Pimentel, é por isso que o País não deve se comparar a grandes potências no assunto, como Estados Unidos ou Itália. "Temos nosso próprio caminho a seguir, mas ele tem sido bastante dificultado porque as condições macroeconômicas locais têm sido perversas para o desenvolvimento do mercado", declara. Altas tarifas sobre os produtos e ilegalidade no comércio exterior são empecilhos citados por várias marcas quando falam sobre as dificuldades nos negócios. A estilista e professora de projeto e metodologia de coleção no Instituto Europeu de Design (IED), Simone Nunes, concorda que a moda do Brasil já mostrou seu diferencial no estrangeiro, mas agora, para entrar na competição internacional, é importante que o mercado todo esteja capacitado: "Temos que parar de ser só perfumaria, design bonito, para estar presentes de verdade no mercado, mostrando nossa produção". Hoje, essa produção alcança o volume de 7,2 bilhões de peças e emprega 28.165 pessoas formalmente. Publicidade Apesar da crise nas exportações nacionais do setor têxtil, o investimento publicitário do segmento teve grande crescimento em 2006, impulsionado pela expansão do consumo interno. A competição pelos consumidores explica o aumento de 51% no investimento publicitário da categoria, quando comparado o último trimestre do ano passado com igual período de 2005. O investimento publicitário do setor de calçados, um dos mais prejudicados pela entrada maciça de produtos importados, apresentou elevadas taxas de crescimento (136% no total, segundo o Ibope Monitor). O segmento de vestuário também sofre com a expansão das importações, ao mesmo tempo em que aumenta o poder de consumo do mercado interno, em virtude da maior freqüência de compra. Houve ainda incremento das mídias especializadas no setor, e o investimento em revistas tem sido priorizado em detrimento da televisão aberta pelos anunciantes de vestuário, calçados e têxteis. Se as revistas ficam com 41% do bolo total do segmento, sua média de participação no investimento publicitário nacional total foi de 10% no último trimestre de 2006. De acordo com o Ibope Monitor, o investimento publicitário no setor de vestuário no Brasil deverá permanecer aquecido enquanto perdurar a situação de aumento da concorrência (pela entrada dos importados), paralelamente à expansão do poder de compra das camadas menos privilegiadas da população.