Novo recorde de importações sinaliza desindustrialização

Veículo: Folha de S. Paulo
Seção: Dinheiro
Página: B-2

O recorde das importações em março é mais um sinal de que o país caminha, ainda que a passos lentos, para um processo de desindustrialização. A revisão dos números do PIB já havia dado sinais da desindustrialização. A participação da indústria no PIB baixou de 36,6% para 27,3%. O economista Antonio Corrêa de Lacerda, da PUC-SP, diz que há outros sinais que mostram com clareza esse processo de industrialização. Entre eles, a qualidade da produção do país. Cada vez mais, a indústria produz para as áreas de minério de ferro e petróleo, por exemplo, que são setores menos sofisticados e de menor valor agregado. A principal razão para isso é evidentemente a valorização do câmbio, mas Lacerda diz que esse problema poderia ser contornado se o país adotasse uma política industrial. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, está preocupado com esse problema e deve se reunir nos próximos dias com o novo ministro do Desenvolvimento, Miguel Jorge, para os dois discutirem uma proposta de política industrial no país. Segundo Antonio Corrêa de Lacerda, ao contrário do que se diz, a economia brasileira é menos fechada do que se imaginava, ao se analisar os novos números do PIB. Se for levado em conta a corrente de comércio (exportação mais importação), conclui-se que houve uma queda (de 23,9% do PIB para 21,5%) e, portanto, a economia seria mais fechada. Mas não é esse, na sua opinião, o principal termômetro para medir o grau de abertura da economia. Ao se debruçar sobre os números, de acordo com Lacerda, percebe-se que a relação entre importações e a produção total da indústria subiu de 16,9%, em 2002, para 19%, em 2006. Isso mostra que a economia está mais aberta, especialmente nos setores intensivos em trabalho, como têxtil, vestuário, calçados e móveis, que são os mais atingidos com o aumento das importações e a concorrência com a China.