Competição acirrada por baixo dos panos

Veículo: Extra
Seção: Economia
Página: 30

Que o biotipo físico das brasileiras é bem diferente do das chinesas todo mundo já reparou. Mas que as calcinhas que elas usam lá estão começando a invadir as lojas daqui é surpresa para muita gente. E o pior: é uma séria preocupação para a indústria de lingerie, especialmente a fluminense, responsável por 20% da produção nacional. Bem mais baratas, as lingeries chinesas estão chegando ao consumidor com preços inferiores à metade do que é cobrado pelas peças brasileiras. Isso porque o custo de produção deles é muito menor e a importação acaba sendo vantajosa para empresas brasileiras. Um conjunto de calcinha e sutiã chinês, por exemplo, pode ser comprado a R$ 10, enquanto o brasileiro fica em torno de R$ 25. Já calcinhas mais simples chegam a custar R$ 1. Segundo Amim Mazloum, presidente do Sindicato da Indústria do Vestuário de Nova Friburgo cidade onde fica o pólo de moda íntima do estado, com 1.200 confecções a presença de produtos chineses não é nova, mas só agora começa a incomodar: Eles estão adquirindo know how, importando modelistas e estilistas, sem contar que têm muita tecnologia e um batalhão de trabalhadores. Já melhoraram em qualidade de costura e tecido, mas ainda perdem em estilo. Tendência de alta As calcinhas chinesas ainda não são nem 20% do total que está nas lojas. Mas a expectatíva é de que esse volume cresça, uma vez que as condições, para eles, são favoráveis. E não é só em bancas de pequenas lojas que podem ser encontradas, no Brasil grandes redes já estão vendendo também. Criatividade é uma das armas Para driblar a concorrência, a saída é lançar mão da criatividade. Segundo Amim Mazloum, as indústrias estão explorando nichos para compensar a guerra de preços. Produtos diferenciados para gordinhas, grávidas, mulheres com pouco peito ou menos bumbum do que gostariam são os trunfos dos produtores brasileiros. Até o governador Sérgio Cabral aprovou a estratégia: durante o Fashion Busíness, em janeiro, posou para fotos segurando uma calcinha turbinada, que ganhou no evento. Impostos e contrabando favorecem concorrentes A concorrência com produtos chineses, que começa a ficar acirrada para a indústria têxtil, é mais culpa do Brasil do que da China; segundo o próprio setor. Os chineses estão fazendo o que eles consideram certo disse Fernando Pimentel, diretor superintendente da Associação Brasileira de Indústria Têxtil e de Confecção (Abit). Além das barreiras tributárias, o setor ainda enfrenta a concorrência ilegal. Metade do vestuário que o Brasil importa está dentro dos preços normais de US$ 14 o quilo, por exemplo. A outra metade vem de forma ilícita, a US$ 3 o quilo, o que não paga nem a matéria prima. De acordo com Pimentel, se as condições não mudarem, muitos empregos estarão ameaçados: "Estamos ajudando os chineses a criar emprego lá em detrimento dos nossos aqui". Segunda a Confederação Nacional da Indústria, não é só o setor têxtil que vem sofrendo com a presença chinesa. Uma em cada quatro empresas concorre com os importados da China. Conforme pesquisa da entidade, o país comunista tirou clientes de 58% das empresas brasileiras que disputam o mercado externo. Carga tributária aqui é de 40%. Lá, é de 17% O presidente da Câmara de Comércio e Indústria Brasil China, Charles Tang, reitera que a culpa da concorrência crescente não é dos chineses que segundo ele, estão entrando legitimamente em um mercado que dá condições para isso. Os chineses não são culpados pelo alto custo de produção do Brasil, nem pelo modelo socioeconômico instalado aqui disse. Ele lembra que a carga tributária cobrada dos empresários no Brasil é de 40%, enquanto na China é de 17%. Os encargos trabalhistas aqui são da ordem de 127%, segundo ele, e na China, de 53%. E a taxa de juros real brasileira é de 8,5% ao ano, enquanto no país oriental é de 2,5%. No dia 18 de abril, os empresários do setor têxtil brasileiro estão programando um ato no Congresso Nacional para apresentar aos deputados propostas que fortaleçam o Brasil na competição com o mercado externo. Uma das sugestões será a ampliação do Simples (Sistema Integrado de Pagamento de Impostos) da produção até o varejo.