Para exportador, dólar em R$ 2,10 já é uma tragédia

Veículo: Estado de São Paulo
Seção: Economia
Página: B4

A forte queda na cotação do dólar neste início de semana deixou o setor industrial extremamente apreensivo. Para o presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), Benedicto Fonseca Moreira, o dólar abaixo de R$ 2,10 é uma "tragédia". Segundo ele, o câmbio nesse nível tira o ganho que os exportadores vinham obtendo com a alta nos preços de alguns produtos, além de excluir do mercado externo empresas que já trabalham com margens no limite. "Temos um real se valorizando e um custo interno se agravando", diz Moreira. "É um choque de trens que temos pela frente." Na sua avaliação, a situação do câmbio hoje no País é uma temeridade, cujas conseqüências serão desastrosas para a economia. Um exemplo claro disso é a taxa de crescimento das importações, que já supera a das exportações. "Em qualquer país do mundo isso faria acender o sinal amarelo no governo", afirma o presidente da AEB. "Aqui, parece que eles (o governo) vão esperar a inversão das contas e a volta da vulnerabilidade externa para corrigir as distorções." Uma medida que, segundo ele, contribuiria para diminuir a enxurrada de dólares no País seria a instituição de uma quarentena para investimentos estrangeiros especulativos. "Não pode deixar o camarada que tem dinheiro sobrando lá fora vir aqui dar uma bicada na bolsa, uma bicada no juro e no dia seguinte ir embora." Outra queixa dos exportadores refere-se à falta de regulamentação da medida que reduz a necessidade de cobertura cambial. Prevista no pacote cambial anunciado em agosto, a medida permite que os exportadores mantenham no exterior 30% dos recursos obtidos com as vendas externas. "A medida poderia ter sido salutar para o comércio exterior, mas acabou afogada na burocracia", diz o diretor do Departamento de Comércio Exterior da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Roberto Giannetti da Fonseca. A valorização do real ante o dólar afeta praticamente todos os segmentos exportadores da indústria, mas os mais prejudicados são a indústria têxtil, de móveis e calçados, que hoje são conhecidos como os "órfãos do câmbio". No setor têxtil e de confecções, as importações cresceram 50,4% nos últimos 12 meses. No mesmo período, as exportações caíram 5,9% Segundo o presidente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), Josué Gomes da Silva, 280 mil empregos no setor estão em risco este ano, caso seja mantida a tendência de alta das importações. "A valorização do real significa uma visão destrutiva da indústria têxtil", afirma Fernando Pimentel, diretor-superintendente da Abit. Na Artefama, maior exportadora de móveis do País, a situação é complicada. "Estamos fazendo malabarismo", diz Álvaro Weiss, presidente da empresa. A situação, segundo ele, é ainda mais dramática porque o governo não faz sua parte."Só de créditos de impostos federais e estaduais temos a receber R$ 8 milhões referentes aos últimos dois anos."