IBGE: produção cresce 2,8% em 2006

Veículo: Gazeta Mercantil
Seção: Nacional
Página: A7

Resultado foi o menor dos últimos três anos; empresários culpam valorização do real. A produção industrial cresceu 2,8% no ano passado, no embalo de segmentos favorecidos por desoneração de impostos, estímulo ao crédito e outras ações de incentivo do governo federal. Os esforços no entanto foram insuficientes para evitar que o resultado de 2006 fosse o menor dos últimos três anos, o que reforçou críticas da classe empresarial sobre a valorização do real e a perda de competitividade dos setores mais intensivos em mão-de-obra. Fabricantes de material de informática foram os maiores responsáveis por empurrar a indústria, entre as 23 atividades investigadas pelo IBGE. A produção de máquinas para escritório e equipamentos de informática disparou 51,6% no ano passado. Computadores, peças, software e equipamentos de alta tecnologia ganharam incentivos fiscais e linhas de financiamento. Pelo programa Computador para Todos, as empresas ficam livres de PIS/Cofins na produção de computadores de até R$ 2,5 mil. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) financia a produção de software sem custo adicional de financiamento. Depois do pacote de bondades para o setor de construção civil, a produção de cimento aumentou 7,7% em 2006, mais que o dobro da média da indústria (2,8%). A coordenadora da Pesquisa Industrial Mensal do IBGE, Isabella Nunes Pereira, atribui o aumento ao incentivo federal. Ela também destaca a produção de massa de concreto e de materiais não-metálicos, ligados à construção. "Observamos que os segmentos que receberam incentivos reagiram", diz Isabella. O coordenador da Sondagem Industrial da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Aloisio Campello, faz coro à constatação do IBGE, especialmente ao que se refere à construção civil. O economista destaca que a confiança do empresariado do setor de construção chegou a crescer 17,8% no ano passado, bem acima da média da indústria, da ordem de 9%. "Além dos incentivos do governo, devemos considerar que a renda cresceu e que o setor estava no fundo do poço." A fabricação de transformadores de eletricidade passou a crescer fortemente ano a ano depois que o governo lançou, no início do primeiro mandato, o Programa Luz para Todos. Em 2006, a produção de material elétrico cresceu três vezes mais que a média industrial: 8,7%. Em 2005 e 2004, o crescimento também foi maior que o da indústria, com taxas de 7,9% e 7,1%, respectivamente. O Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) também atribui parte da expansão industrial à medidas de apoio do governo com desoneração ou crédito. "O dinamismo desses setores, voltados para o mercado interno, decorreu seja de estímulos fiscais e creditícios (caso da indústria computadores), seja da evolução favorável da renda e do crédito (caso de bens de consumo duráveis), seja ainda de investimentos em infra-estrutura e construção civil", cita o Iedi. O instituto, porém, destaca a desproteção de outras atividades industriais por causa da valorização do real, na mesma linha da Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp). "É lamentável constatar que, dentre os 27 setores pesquisados, 18 ficaram abaixo da média e apenas nove acima", diz o presidente da Fiesp, Paulo Skaf, em nota à imprensa. "Além das conseqüências adversas dessa valorização sobre os setores intensivos em trabalho, como têxtil, vestuário, calçados e couro, madeira e produtos de metal, ela também comprometeu o crescimento da indústria automobilística - cujos efeitos irradiadores sobre o restante da cadeia industrial são muito amplos - e das indústrias de bens intermediários, que respondem por mais de 50% da produção industrial brasileira", constata o Iedi. A desacaleração nos bens intermediários foi destacada na própria do IBGE. A enxurrada de importações de bens intermediários, de acordo com o IBGE, afetou o desempenho da indústria, já que a categoria responde por mais da metade da produção de todo o setor. Madeira (-6,9%), vestuário (-5,0%) e outros produtos químicos (-0,9%) foram as principais pressões negativas segundo o IBGE. ]A maior alta partiu dos bens de consumo duráveis (5,8%), impulsionadas sobretudo pela produção de automóveis (5,1%) e eletrodomésticos (10,0%). A manutenção do crédito, a maior estabilidade no mercado de trabalho e o aumento da massa salarial estimularam as vendas domésticas de bens duráveis. Os bens de capital (5,7%) também cresceram acima da média nacional, apoiado principalmente na compra de computadores, nos resultados de bens de capital para fins industriais (5,3%) e nos segmentos relacionados à infra-estrutura. O IBGE destaca a produção de máquinas e equipamentos para energia elétrica (22,2%) e para construção (8,2%). Na outra ponta, bens de capital agrícolas (-16,5%) e de bens de capital para transporte (-1,6%). A categoria de bens de consumo semiduráveis e não duráveis (2,7%) ficou próximo à média geral da indústria e teve como destaque alimentos e bebidas elaborados para consumo doméstico (3,1%), onde os principais itens foram refrigerantes e cervejas. Com o mesmo ganho de mercado provocado por programas como o Bolsa Família e pelo aumento de salários, a indústria farmacêuticas e de edição e impressão também produziram mais.