Indústria inicia ano em alta e sem estoques

Veículo: Valor Econômico
Seção: Brasil
Página: A3

O ano de 2006 terminou com uma combinação positiva de baixo estoque e aumento da capacidade instalada na indústria. Dados divulgados ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e a Confederação Nacional da Indústria (CNI) indicam que as vendas industriais cresceram em ritmo muito superior ao da produção ao longo de todo o terceiro trimestre de 2006, movimento que foi acentuado em dezembro e que aponta baixa formação de estoques. Além disso, a produção de máquinas e equipamentos para fins industriais aumentou 8,8% em dezembro na comparação com o mesmo mês de 2005. A perspectiva de um início de 2007 mais forte na indústria é reforçada pelas primeiras informações de setores que funcionam como indicadores antecedentes do setor. Na distribuidora Rio Negro, a maior do segmento de aço do país, este janeiro foi o melhor da empresa em muitos anos e as vendas ficaram 30% acima das de igual mês de 2006. Na Indústria São Roberto, as vendas aumentaram entre 3% e 4%, percentual que deve ser repetido no setor, na avaliação do seu diretor Roberto Nicolau Jeha. Um terceiro segmento importante para a atividade econômica, a venda de automóveis, também foi forte em janeiro e apresentou crescimento de 15% sobre janeiro de 2006. No Pólo Industrial de Manaus (PIM), o começo do ano foi positivo. O presidente do Centro das Indústrias do Estado do Amazonas (Cieam), Maurício Loureiro, diz que, em janeiro, a produção ficou igual à do mesmo mês de 2006. "Mas, em relação a dezembro, o resultado mostrou-se bastante alentador, pois os segmentos de eletroeletrônicos, duas rodas, alimentos e relógios tiveram forte reposição de estoque neste início de ano", afirma Loureiro, ainda sem dispor de números sobre o desempenho do primeiro mês do ano. Segundo ele, as encomendas de produtos eletrônicos feitas pelo varejo foram bem. "Elas demonstraram grande força de reposição, em especial para TVs de 29 polegadas e alguns produtos da linha de LCD (cristal líquido)." No quarto trimestre de 2006 as vendas da indústria, pelos dados da CNI, aumentaram 3,9% em relação ao terceiro trimestre, ritmo três vezes superior ao da produção, com alta de 1,1% na mesma comparação. Ao mesmo tempo, segundo projeções de Maurício Moura, economista-chefe da Gouvêa de Souza & MD, as vendas do varejo devem ter crescido 6%, bem acima da produção. Isso sinaliza estoques baixos e novas encomendas neste início de ano. Moura projeta uma expansão de 2,5% na produção industrial em janeiro na comparação com mesmo mês do ano passado. Já em relação a dezembro de 2006, a alta deverá ficar em 1,2%, na série com ajuste sazonal. A produção industrial fechou dezembro com expansão de 0,5% em relação a novembro. No ano, porém, a indústria desacelerou, acumulando taxa de crescimento de 2,8%, abaixo dos 3,1% de 2005, de acordo com os dados divulgados pelo IBGE. O resultado de 2006 foi o menor da pesquisa industrial mensal (PIM) do IBGE, desde 2003. Isabella Nunes, gerente da área de análise e estatísticas da Indústria no IBGE, destacou a melhor qualidade do crescimento, com maior dispersão entre os setores. Dos 23 ramos pesquisados, 20 fecharam o ano em alta, e puxados pela produção de máquinas e equipamentos. Entretanto, Isabella atribuiu à valorização do real a queda na taxa de crescimento entre 2005 (quando a produção cresceu 3,1%) e 2006. "O que justifica essa pequena redução de 2005 para 2006 é a perda de ritmo de alguns setores afetados pelo câmbio." Entre os segmentos mais prejudicados, ela apontou a indústria de madeira, que teve queda de produção no ano de 6,9%; de vestuário, com recuo de 5% e a indústria de calçados, com redução de 2,7% na sua atividade. Na avaliação de economistas, o crescimento da indústria de bens de capital no fim do ano foi o que ajudou a puxar para cima o desempenho da produção de dezembro. No ano, a alta deste segmento foi de 5,7% no ano, ante 3,6% em 2005. Na comparação com novembro, esta indústria cresceu 5,4%, com alta de 8,8% na produção de máquinas e equipamentos para fins industriais. Esse ritmo de investimento sinaliza futuro aumento da oferta interna de bens em 2007, como destacou Juan Jensen, da Tendências Consultoria. A LCA Consultores revisou sua projeção para o investimento em 2006, entendida como formação bruta de capital fixo (FBCF) de 6,3% para 6,7% por conta da expansão da produção de bens de capital. O grupo de máquinas de escritório e equipamentos de informática, cuja produção cresceu 51,6% no ano passado, devido à maior produção de computadores, foi o que apresentou maior expansão dentre os ramos da indústria de bens de capital. Isabella explicou que além do programa do governo "Computador para todos" , que tem linhas especiais de crédito e isenção de impostos, o segmento se beneficiou da valorização do real que reduziu o preço dos componentes importados. Entre as categorias de uso, os bens de consumo apresentaram expansão de 3,4%, em 2006, com realce para os bens semiduráveis e não duráveis. Os duráveis, apesar do crescimento das importações, expandiram 5,8% em 2006, ficando 0,1 ponto percentual acima da performance de bens de capital, sinalizando que o consumo das famílias também terá destaque no PIB de 2006. Os semiduráveis e não duráveis tiveram aumento de apenas 2,7%, ficando abaixo da média da indústria, enquanto os bens intermediários amargaram o desempenho mais fraco - 2,1% no ano. Os índices trimestrais revelam que a indústria apresentou maior vigor no último trimestre, quando cresceu 3,3%. Isabella destaca que isso mostra uma tendência de maior crescimento em 2007. Edgard Pereira, diretor-executivo do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), acredita que, após um ano "medíocre", em janeiro a indústria deverá mostrar resultados positivos. "O setor terminou o ano melhor do que começou."