Tecnologia e moda desfilam juntas

Veículo: Estado de São Paulo
Seção: Link
Página: L8

Olá, você ligou para o Jum Nakao, mas no momento eu não posso atender. Por favor, NÃO deixe recado, e sim mande um e-mail para atendimento@jumnakao.com.br. Só essa gravação de secretária eletrônica, pra lá de diferente, já seria um indício de que o estilista Jum Nakao é um freak por tecnologia. Mas a obsessão vai além disso: a tecnologia é sua grande fonte de inspiração para criar moda. Jum, que se considera um estilista multifuncional, já que às vezes também ataca de inventor, tem como característica de seu trabalho propor brincadeiras em torno da relação entre tecnologia e tempo. Isso aparece em suas coleções, que, apesar de terem uma aparência bem retrô, são construídas com materiais supermodernos. É uma proposta de como o hi-tech pode ser ao mesmo tempo vintage, e vice-versa. Para o estilista, moda e tecnologia são muito próximas e têm como objetivo final a interação com o ser humano. Ambas facilitam a comunicação entre as pessoas e estabelecem novas formas de linguagem. A roupa é como se fosse uma segunda pele, a interface entre você o mundo. É o fundo de tela que você coloca em si próprio para que os outros possam perceber o seu estado de espírito, diz. Pode parecer viagem, mas quem vê as coleções de Jum logo entende o seu raciocínio. Em sua estréia na SP Fashion Week, a semana de moda paulistana, ele apresentou o desfile Future Kitsch (2003). A coleção tinha o objetivo de mostrar como toda essa velocidade tecnológica atual faz com que uma informação que hoje é novidade, como um vídeo no You Tube, já será obsoleta amanhã. As formas das roupas, as modelos, o cenário e a trilha sonora pareciam ter saídos dos anos 1920/30. Mas as peças tinham estampas e cores com a cara do século 21. Foi uma maneira de romper com o tempo, explica. Desenhei o que tinha de mais tecnológico com um visual retrô, mostrando que o que é hype hoje é kitsch amanhã, diz. Essa visão crítica da sociedade e da tecnologia também estava presente no ano seguinte, na coleção A Costura do Invisível. As roupas foram confeccionadas com papel vegetal, algo superantigo, e recortadas a laser, moderníssimo (veja ao lado). Além de inspiração, a tecnologia também é uma grande ferramenta para Jum. Usando o seu lado inventor, em uma de suas coleções ele utilizou um tecido desenvolvido a partir da nanotecnologia: o Hidrata. Nas fibras das roupas, havia microcápsulas com vitaminas. Com o aumento da temperatura ou o atrito da pele, elas explodiam e hidratavam o corpo. Quando jovem, Nakao fez colegial técnico em informática e quase cursou a Faculdade de Engenharia Eletrônica. Acabou desistindo da carreira porque não queria ser engenheiro, mas artista. Sua vontade era trabalhar com videoinstalações de arte, mas acabou encontrando na moda a melhor maneira de responder às suas inquietações. Queria criar, inventar e usar a tecnologia para ampliar a percepção humana, diz Jum. Em seus trabalhos como estilista, assim como em palestras ou exposições, Jum procura mexer com os sentidos das pessoas, fazendo com que elas se sintam parte da obra. Para ele, o melhor exemplo de tecnologia e interação é o recém-lançado console de videogame Nintendo Wii: Ele abriu uma nova frente de possibilidades de imersão nos jogos. É quase 3D, você se sente dentro da tela. Nakao ficou tão empolgado para testar o novo console - cuja estrela é um revolucionário joystick que responde ao movimento de todo o corpo - que enfrentou horas e horas de fila em Nova York (EUA) para ser uma das primeiras pessoas no mundo a tê-lo. Depois, como não podia deixar de ser, comprou um Atari também. Roupa de papel é crítica à sociedade Apesar de parecer ser um grande crítico do mundo hi-tech, Jum sabe reconhecer o valor da tecnologia na sociedade atual. Segundo ele, apesar do excesso tornar tudo mais efêmero, ela ao mesmo tempo facilita a percepção de tudo o que é descartável e banal. Foi essa a idéia que o estilista quis passar na coleção A Costura do Invisível, com modelos inspirados no final do século 19. Para Jum, caso o desfile fosse como outro qualquer, e os vestidos não fossem rasgados ao final da apresentação, as chances de o público esquecer o que havia visto seriam grandes. "Mesmo nada existindo no final, aquilo ficou na memória das pessoas", comenta. O processo de composição da coleção foi pra lá de trabalhoso: demorou 700 horas e envolveu 150 pessoas. Para destruí-la, só foram necessários dez minutos. Jum conta que o trabalho seria impossível de ser realizado sem a ajuda da tecnologia. "O trabalho inicial foi todo artesanal, mas depois percebemos que nesse ritmo só iríamos terminar tudo em seis meses", diz. Para facilitar o processo, uma empresa de laser foi contratada para recortar os vestidos de papel vegetal, que não tinham costuras. udo ficou pronto em três dias. O burburinho em torno da apresentação mostrado na SPFW do verão de 2004 fez com que A Coleção do Invisível rendesse a Jum um livro, um DVD e diversas palestras ao redor do mundo. Todo o processo de construção foi documentado em fotos e vídeos. O making-off da coleção pode ser visto no site www.jumnakao.com.br, em sua página virtual de fotos no Fickr (www.flickr.com/photos/jum_nakao) ou no You Tube (procure por Jum Nakao).